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entrevista:
arquiteto Acácio Gil Borsoi
Reprodução
de entrevista cedida a Éride Moura, na revista Projeto
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Arquiteto,
filho de desenhista-arquiteto, casado com arquiteta, pai e avô de
arquitetos, o carioca Acácio Gil Borsoi diplomou-se no final dos
anos 40. Depois de trabalhar no Patrimônio Histórico, numa época
em que teve como superiores Rodrigo de Melo Franco e Lúcio Costa,
seguiu para Recife, onde, durante 28 anos, lecionou na Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE). Um dos líderes da escola de Recife,
Borsoi destaca-se no cenário da arquitetura nacional por sua contínua
contemporaneidade. Aos 76 anos, ele consegue conciliar obras em vários
estados e com diversos |
| programas:
residências, edifícios públicos, comerciais e residenciais, com
incursões na área de urbanismo. Tem atuado também, ao lado da
mulher, Janete Costa, na restauração de edifícios históricos,
sua mais antiga paixão. |
Como foi o início de sua
profissão no Rio, com Affonso Reidy, Alcides da Rocha Miranda e tantos
outros profissionais de renome? Trabalhei com Reidy e Rocha Miranda
quando ainda era estudante de arquitetura. Quando eles projetaram o teatro
de Salvador, Joaquim Cardozo fez os cálculos e eu os desenhos, mas na
condição de estudante. Ainda hoje sou amigo de Rocha Miranda. Janete e
eu tínhamos um carinho muito especial por Roberto Burle Marx, e ainda
sentimos muita falta dele.
O senhor chegou a trabalhar com
Oscar Niemeyer? Nunca trabalhei com ele. Nós nos damos bem, mas há
certa diferença entre meus princípios e os dele. Respeito plenamente o
trabalho dele e o que ele pensa, mas acho que arquitetura não é só
arquitetura, é criatividade, conhecimento, e também construção. É
preciso conhecer muito sobre construção para projetar. Não se pode
projetar na pedra sem saber como é o trabalho na pedra. O mesmo com o
ferro e outros materiais. Lúcio Costa também via a arquitetura dessa
forma, e esses foram os fundamentos do ensino que lancei em Recife. Outro
dia, assisti a um documentário na TV sobre [Ieoh Ming] Pei, que projetou
a pirâmide do Louvre, em que ele fala que, no seu trabalho, a forma só
surge após o pleno conhecimento do processo tecnológico para
executá-la. E nunca a forma pela forma, pela poesia. Por isso nunca
trabalhei com Oscar, mas reconheço que seu trabalha foi fundamental para
divulgar a arquitetura brasileira no mundo.
Como surgiu a oportunidade de
trabalhar em Recife? Foi através de Lucas Mayerhofer, que tinha sido
meu professor na Belas-Artes. Ele foi a Recife participar de uma banca
examinadora na escola de arquitetura, e lá lhe pediram que indicasse
alguém para a cadeira de pequenas composições. Ele me indicou e
aceitei. O período era semelhante a esse que estamos vivendo, de abertura
política, mas com a diferença de que, naquela época, havia muita
esperança, as pessoas viam o futuro com otimismo. Fui para Recife para
lutar por certos princípios, contribuir, queria mudar o ensino de alguma
forma. E fiquei 28 anos como professor 1 Como foi a experiência na
universidade? Eu vinha de fora e trazia muitas idéias novas, que mexiam
com a congregação. Procurava mostrar aos alunos que a arquitetura, no
fundo, resulta em construção. Mas. uma construção que se distingue
porque atinge os valores subjetivos da beleza e da emoção, que
transcendem as coisas materiais. Meu objetivo sempre foi ensinar a
arquitetura como produto da construção, não do projeto. O projeto é o
meio de se chegar ao produto. Quem quiser fazer um projeto correto deve
conhecer todas as maneiras de construí-lo, procurando ser fiel a seu
pensamento, não só no todo, mas nas partes. Até hoje, as escolas de
arquitetura ainda dão mais ênfase ao projeto do que à construção.
O senhor é citado pelos
arquitetos pernambucanos, junto com Delfim Moreira e Luís Nunes, como
fundador da escola de Recife. É correto falar em escola? Ela ainda
existe? Certa vez, o Jornal do Brasil me fez pergunta semelhante.
Respondi que, se forem válidas como escolas as expressões
arquitetônicas do Rio - em que existe a preocupação de criar no sentido
da emoção e de valores subjetivos -e de São Paulo - que, sob a
orientação de Artigas, transformava tudo em bunkers de concreto, caixas
de concreto com pestanas -, então a do Nordeste existe, sim. E uma
expressão arquitetônica em que a luz, a sombra, o vento e a
transparência fazem parte do projeto. E que faz uso de terraços, grandes
beirais, muita sombra, por causa do calor. A preocupação com o conforto
ambiental fez parte da nossa pauta de trabalho na escola de arquitetura da
Universidade Federal de Pernambuco e dela saiu uma tipologia
característica.
E quando surgiu seu primeiro
projeto moderno no Nordeste? Foi a casa Lisanel Melo Mota, ainda nos
moldes da arquitetura de Jorge Moreira, de Niemeyer, com plano inclinado e
coisas chanfradas. Depois comecei a fazer uma série de outras casas, em
Recife, João Pessoa, Maceió, Natal, Teresina, Fortaleza, mas com uma
arquitetura mais livre dessas influências e apropriada à região. Os
primeiros prédios foram o do Banco Lar Brasileiro, em Recife, o Lagoa Mar
e o Banco do Estado, em Maceió. Eles marcaram uma grande mudança na
arquitetura dessas cidades, que tinham edifícios muito ruins na época.
O senhor sempre cita como obras
fundamentais, em seu trabalho, o fórum de Teresina e o conjunto
administrativo de Uberlândia. Por quê? O fórum representou não só
a racionalização da obra, mas também a ligação entre a atitude
criativa, de expressão, e o produto final, a construção. O edifício
foi todo armado com meia dúzia de peças; trata-se de processo antecipado
de pré-fabricação. Todos os projetos que fizemos depois evoluíram
desse. Em Uberlândia, utilizamos realmente o pré-fabricado, com vigas e
painéis moldados fora e armados no local.
Com grande experiência em obras
de restauração, como o senhor analisa as intervenções em sítios de
valor histórico em execução atualmente? Não estou de acordo com os
que não aceitam alterações em determinados locais ou obras. Muitas
vezes é preciso fazer mudanças até o prédio ou o sitio atingirem a
perfeição, chegarem ao ponto definitivo. Claro que se deve obedecer a um
processo cultural, de conhecimento, de respeito pela obra. Hoje, já não
se pode imaginar o Louvre sem a pirâmide de Pei, tão criticada na
época. Ela se integrou de tal maneira que passou a fazer parte do
conjunto. Já a praça de São Marcos, em Veneza, foi sendo modificada
durante séculos e só quando completou 500 anos não pôde mais ser
alterada. No Rio de janeiro, as pessoas confundem tudo. Por exemplo, não
se pode mexer na pedra da Gávea. Só que ela já está alterada, tem até
favela lá em cima. Não se pode construir um edifício ali, tudo bem; mas
a prefeitura pôde fazer escoras na pedra sem nenhum critério de unidade
ou beleza, e ninguém diz nada. Claro que a escora era necessária para a
pedra não cair, mas por que não fazer uma coisa bonita? O problema do
patrimônio histórico no Brasil. é que só se pensa na intervenção em
determinado prédio, nunca no entorno.
No Maranhão, o senhor tem atuado
nessa área com muito sucesso... Junto com Janete, fiz a restauração
do teatro Artur Azevedo, de São Luís, um dos mais antigos do país,
inaugurado em 1817. Até chegar a nossas mãos, ele já tinha passado por
uma infinidade de reformas. No início do século passado, ganhou a
fachada eclética que apresenta hoje, mas que modificou completamente suas
características. Era uma construção com princípios neoclássicos, mas
assimétrica, o que é incomum e interessante. Mas não tínhamos como
reconstitui-la, pois não havia fotos. Aproveitamos os poucos elementos
antigos que ainda existiam para fazer a reconstituição do teatro,
procurando recuperar o nível de expressão que o edifício representava
para a cidade. Claro que dentro de. certos princípios, respeitando sua
forma. O teatro de Gênova, que tinha sido bombardeado, foi reformado por
Aldo Rossi; ele subiu tanto a caixa de palco que marcou a paisagem. Aqui
é que existe essa história de não mexer. Em São Luís, como a
intenção do governo era transformar o velho teatro em um teatro
clássico, de ópera, a primeira coisa que fiz foi construir um palco
dentro dos padrões de teatro de ópera, derrubando o velho. E isso foi
feito sem problemas? Para conseguir fazê-lo, tive de bater de frente com
o Patrimônio, mas terminei construindo a caixa de palco nova, sem
interferir na cidade, nem agredir as vistas das ruas. Procuramos corrigir
as partes que não tinham unidade com o todo, resolvendo o palco;
restauramos a ornamentação a partir das fotos disponíveis e mantivemos
a ferradura da pIatéia, que era original, em pedra. Uma reforma anterior
tinha refeito todas as frisas e camarotes, que eram de madeira, em
concreto. A solução foi ajustar o concreto para dar uma imagem de teatro
clássico, de época, coerente com a fachada. Concluída a obra, tempos
depois, em Paris, peguei por acaso um suplemento dominical do jornal Le
Figaro, que trazia reportagem sobre São Luís. Recomendava, entre as
coisas que o visitante não poderia deixar de ver, o Teatro Artur Azevedo,
magnificamente restaurado. Agora estamos fazendo o palácio do governo
estadual, e, se tudo der certo, será minha obra mais importante na
cidade.
Dar certo em que sentido? No
sentido de restituir à população um monumento importante, totalmente
renovado e recuperado após um trabalho coerente, que deve incluir também
o entorno, hoje muito deteriorado. O palácio fica numa colina, às
margens da baía de São Marcos, montado sobre antiga fortaleza, que foi a
origem da cidade. Na execução do projeto, estamos utilizando as mais
modernas tecnologias para atender às necessidades programáticas da sede
e residência oficial do governo do estado. A residência passou a ocupar
a antiga ala administrativa, e para essa inversão foi preciso mexer em
tudo, e ainda ordenar a composição das fachadas, de maneira a. dar
beleza e harmonia à edificação. O trabalho de Janete, nos interiores,
compatibilizou o acervo do palácio com os novos mobiliários e objetos. A
residência, primeira etapa do projeto, já foi inaugurada. Estamos
concluindo o setor oficial do palácio. Falta restaurar a fortaleza, que
está desprezada, e reconstruir todo o entorno, para criar a unidade
necessária.
O projeto Cajueiro Seco, no
Grande Recife, em 1964, buscava o desenvolvimento do indivíduo, não?
Cajueiro Seco tinha grande significado social; foi uma tentativa de
realmente eliminar os núcleos de pobreza. No governo [Miguel]Arraes, o
arquiteto Gildo Guerra foi escolhido para presidir a Liga Social contra o
Mocambo e me convidou para ser diretor. O período era tumultuado, e havia
uma invasão do sítio histórico da batalha dos Guararapes, área do 4º
Exército. O governo estadual não tinha nada com a briga, mas eu e Gildo
resolvemos conversar com as 800 famílias e passamos a desenvolver o
projeto de um núcleo de auto-ajuda e criar os meios de trabalho.
Tentava-se dar uma profissão àquelas pessoas, para que, dentro do
sistema de autogestão, tivessem condições de sair da miséria.
Conseguimos uma área próxima ao terreno invadido, Cajueiro Seco, e fiz
um plano para a primeira fase do núcleo, gerido pela associação de
bairro. Construímos escola, centro de trabalho comunitário, lavanderia
comum, sanitários, acesso telefone, arruamento, quadras etc. A idéia era
fazer com que as pessoas que quisessem participar do núcleo recebessem
terreno dentro de uma nova comunidade, bem estruturada e com transporte,
para construir suas casas. O projeto provocou uma revolução e se tornou
uma comunidade padrão, apesar da reação das pessoas que pensavam de
maneira assistencialista. As casas foram construídas dentro de um plano.
Havia grande integração e solidariedade entre os habitantes. Com o golpe
militar, foi tudo destruído e fui preso como um criminoso qualquer.
Qual projeto social de sua
autoria recebeu prêmio da União Internacional dos Arquitetos? A
prefeitura do Rio abriu concurso para o projeto Favela-Bairro e me
candidatei com o arquiteto Sérgio Gueron, com quem tinha trabalhado no
extinto BNH, depois de Cajueiro Seco. Fomos selecionados para a favela
Caminho de Job, na Pavuna. A premissa de nosso trabalho era que a favela
existe por causa da miséria; ela não é a causa, mas o resultado. A
doença é a miséria e ela que deve ser tratada. A idéia é a
continuidade amadurecida de Cajueiro Seco. Nossa proposta era valorizar o
potencial humano. Denominamos o sistema de Empresário Capital Zero; era
direcionado às pessoas que tinham aspiração para se desenvolver mas
não possuíam meios. A favela passaria a ser o depositário dos que não
tinham aspirações de vencer, e a prefeitura cederia área onde nós
geraríamos uma nova comunidade, como aconteceu em Cajueiro Seco.
Como seria essa comunidade? Nesse
novo núcleo Unidade de Desenvolvimento e Renda -, que poderia vir a gerar
um bairro ou uma cidade-satélite, seriam oferecidas condições de
trabalho para a comunidade. Depois, seriam criados condomínios
industriais (não são a mesma coisa que as faladas incubadeiras
industriais), porque o sistema não pode ser dirigido de cima para baixo,
tem de ser estruturado com a própria comunidade, para que os
participantes passem a ser responsáveis pelo sucesso do processo. É
diferente do que tem sido feito, quando se desapropria o terreno ocupado
pela favela e, no local, são construídos os edifícios. Não concordo
com a destruição das antigas moradias; as pessoas têm o direito de
continuar no lugar delas. Pelo nosso projeto, como ficam menos moradores
na favela, há espaço para melhor urbanização em função das novas
necessidades. Há mais equilíbrio com o entorno. Por ser diferente dos
demais projetos, houve reação dos "técnicos" de habitação
da prefeitura, que criaram dificuldades, e resultou em um trabalho sem
consistência. Fomos premiados de forma muito gratificante no congresso da
UTA em Bucareste, na Romênia: das três premiações concedidas para as
Américas, a única para a América do Sul foi a nossa. E concorremos com
386 trabalhos.
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